Quinta-feira, 30.05.13

Coisas que acontecem

Esta Maria Teixeira Alves é uma daquelas coisas que acontecem uma vez em cada século. Tipo cometa Halley, mas sem brilho e com má ortografia.

publicado por Rui C Pinto às 22:22 | link | indultar | cuscar indultos (8)
Quarta-feira, 29.05.13

Prós e Contras

Estive lá, do lado do bom senso, para dar a cara por uma causa que merece empenho, pelo bem das crianças que dela beneficiarão.

 

Não tive oportunidade de intervir. Ou falavam todos os inscritos ou o senhor bastonário, não havia tempo para tudo. O que tinha para dizer era muito menos relevante que o testemunho de quem luta por estas causas diariamente, como a Margarida Lima Faria, ou de quem sofre na pele a injustiça da actual lei como a Elizabete Pereira e a Luisa Ferreira.

 

Não posso deixar de registar a fraquíssima qualidade de argumentação de quem alinhou pelo contra. Luís Villas-Boas, confessou-se adepto da lei, desde que se chame outra coisa, reavivando o velho argumento da nomenclatura usado no debate do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pedro Madeira Rodrigues lembrou a lógica do seu filho adoptado de seis anos, que infelizmente vem educando à imagem dos seus lamentáveis preconceitos. Marinho Pinto esgrimiu o derradeiro argumento da lei da natureza, o que seria cómico, não fosse Marinho Pinto Bastonário da Ordem dos Advogados. Por último, resta registar com agrado a intervenção de Abel Matos Santos, que passo a citar:

"acho que o debate deve ser centrado numa questão essencial que é: perceber primeiro, antes de legislar e de decidir, se, isto que está a ser proposto, é bom, é pior ou é igual para as crianças. se for bom ou igual, muito bem. se os estudos mostrarem que é mau, que é pior, então temos que repensar. isto é que é importante. isto é que é o superior interesse da criança"

(transcrito daqui)

Tão simples! Basta seguir as recomendações das associações profissionais que estudam e produzem ciência nesta matéria e das instituições que todos os dias trabalham na defesa do interesse das crianças: 

 

- Instituto de Apoio à Criança:

"O Instituto de Apoio à Criança entende que a aprovação hoje no Parlamento, da Lei que permite a co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo se traduz numa vantagem para as crianças na medida em que protege relações afetivas relevantes."

- American Psychological Association, de que é membro o Doutor Luís Villas-Boas (como lembrou durante o programa):

"There is no scientific basis for concluding that lesbian mothers or gay fathers are unfit parents on the basis of their sexual orientation (Armesto, 2002; Patterson, 2000; Tasker & Golombok, 1997). On the contrary, results of research suggest that lesbian and gay parents are as likely as heterosexual parents to provide supportive and healthy environments for their children.

(...)

Therefore be it further resolved that the APA believes that children reared by a same-sex couple benefit from legal ties to each parent;

Therefore be it further resolved that the APA supports the protection of parent-child relationships through the legalization of joint adoptions and second parent adoptions of children being reared by same-sex couples;"

- American Academy of Pediatrics:

"Children who are born to or adopted by 1 member of a same-sex couple deserve the security of 2 legally recognized parents. Therefore, the American Academy of Pediatrics supports legislative and legal efforts to provide the possibility of adoption of the child by the second parent or coparent in these families.

(...)

The American Academy of Pediatrics recognizes that a considerable body of professional literature provides evidence that children with parents who are homosexual can have the same advantages and the same expectations for health, adjustment, and development as can children whose parents are heterosexual.19 When 2 adults participate in parenting a child, they and the child deserve the serenity that comes with legal recognition."

- American Psychiatric Association (de 2002!!, Adoption and co-parenting of children by same-sex couples):

"Numerous studies over the last three decades consistently demonstrate that children raised by gay or lesbian parents exhibit the same level of emotional, cognitive, social, and sexual functioning as children raised by heterosexual parents. This research indicates that optimal development for children is based not on the sexual orientation of the parents, but on stable attachments to committed and nurturing adults.

(...)

The American Psychiatric Association supports initiatives which allow same-sex couples to adopt and coparent children and supports all the associated legal rights, benefits, and responsibilities which arise from such initiatives."

publicado por Rui C Pinto às 20:58 | link | indultar

Fechado!

João Távora assinou, na sexta-feira, este post para fechar a recente polémica envolvendo o texto de Abel Matos Santos sobre co-adopção. Na verdade, não fechou, porque a discussão continuou na caixa de comentários do meu último post sobre o tema

"João Távora a 25 de Maio de 2013 às 14:18
Caro Rui: Como referi no blog Jugular, se citar autores é plágio então estamos conversados… é que para mim plágio é não os citar, fazendo nosso aquilo que não é. Abel Matos Santos sempre referiu as fontes.
Aliás, conseguiu um feito inédito, deu-vos dois estudos que apoiam a co-adopção e que vocês nem conheciam tal é a vossa capacidade de pesquisa e argumentação. E vocês todos contentes logo viram uma oportunidade para o atacar dizendo que ele tinha dito coisas diferentes desses artigos!

Cordeais cumprimentos,"
"João Távora a 27 de Maio de 2013 às 16:46
Falhou a referência às fontes no artigo do Público, o que é lamentável de facto. Mas não isso não retira crédito à substância tratada."

Ora, eu nunca aqui acusei Abel Matos Santos de plágio. Quem o fez, na verdade, foi a Shyznogud, a Ana Matos Pires, o Paulo Pinto e, na minha caixa de comentários, o próprio João Távora. E é apenas esse facto que justifica que abra esta excepção. É que eu já tinha dado o debate por terminado, como deixei claro no meu post, ao desconsiderar a validade científica do texto de Abel Matos Santos. Eu tive oportunidade de demonstrar que o conteúdo do texto que Abel Matos Santos assina no Público e no corta-fitas não é originalmente seu e, também, que o seu verdadeiro autor não tem credibilidade científica. 

 

O João Távora afirma que o texto de Abel Matos Santos constitui plágio e até qualifica o episódio de lamentável "25 de Maio: Como referi no blog Jugular, se citar autores é plágio então estamos conversados… é que para mim plágio é não os citar, fazendo nosso aquilo que não é. Abel Matos Santos sempre referiu as fontes., 27 de Maio: Falhou a referência às fontes no artigo do Público, o que é lamentável de facto." São palavras suas e eu tendo a concordar.

 

Infelizmente, Abel Matos Santos ainda não referiu, até à data, A FONTE do seu texto. Nem no post que o João Távora assina no corta-fitas, nem no jornal Público, o que considero lamentável, partilhanho o mesmo espírito com que comentou o meu post no dia 27 de Maio. E não dá muito trabalho fazê-lo, basta escrever algo como "Texto de Rick Fitzgibbons adaptado e traduzido de http://www.mercatornet.com/articles/view/same_sex_adoption_is_not_a_game".

 

Mas enfim, o João já lamentou o plágio, nem tudo está perdido. Já só lhe falta:

 

1º clarificar, nos posts que assina (este e este) (até fazê-lo põe em causa a sua boa fé e a sua honestidade neste debate), A verdadeira e única referência à fonte do artigo de Abel Matos Santos.

 

2º perceber que o autor do texto original, sendo um profissional sem credibilidade, ignorado pelos pares e que recorre a práticas condenadas pelos restantes profissionais do sector não dá crédito à substância dos seus textos. O João Távora pode continuar a concordar com o Rick Fitzgibbons e a defender as suas opiniões. O que não pode é garantir que essas opiniões são sustentadas e credenciadas cientificamente.

 

Nunca foi minha pretensão fazê-lo mudar de opinião, mas antes quebrar a ilusão que o seu amigo Abel Matos Santos lhe criou de que essa opinião era sustentada pela ciência.

publicado por Rui C Pinto às 19:18 | link | indultar
Domingo, 26.05.13

Descrédito Fiscal

Primeiro prometemos que não subimos impostos. Logo que somos eleitos subimos o IVA. A seguir anunciamos que vamos baixar a TSU para as empresas. Mas desistimos da ideia porque houve uns tipos que encheram a praça de espanha.Em vez disso subimos o IRS. A seguir anunciamos que vamos baixar o IRC rapidamente, para logo a seguir adiarmos a decisão criando uma comissão. Mas entretanto criamos um super crédito fiscal. Mas como não queremos chatear a troika, é só durante 6 meses e de aplicação restrita.

 

Sounds like a plan, right ?

publicado por vascodcm às 00:14 | link | indultar
Sexta-feira, 24.05.13

Abel Matos Santos ou Rick Fitzgibbons?

Após escrever o meu post anterior resolvi, por curiosidade, pesquisar artigos de opinião de Rick Fitzgibbons. Deparei-me com este artigo daquele autor no site mercatornet. Encontrei, no final desse texto, a mesma lista de referências bibliográficas que Abel Matos Santos acrescentou posteriormente ao seu post. A surpresa não ficou por aqui. Existe uma coincidência de argumentos notável entre os dois textos. Atrevo-me até a dizer que Abel Matos Santos fez um exemplar exercício de tradução. Senão vejamos, coloquei a itálico o texto de Abel Matos Santos, seguido do original em inglês de Rick Fitzgibbons. 

 

1 - Iniciativas legislativas para que se aprove a adopção por pares homossexuais são erróneas e imprudentes porque desprezam os direitos das crianças e ignoram importantes estudos e pesquisas da área psicológica e social no que diz respeito às necessidades daquelas.

"Moves by legislators and homosexual activists to endorse same sex adoption are misguided. Their intentions may be good, but they are ignoring the rights of children and important social and psychological research into the homosexual lifestyle."

2 -  Cada criança precisa de um pai e de uma mãe. Quando se altera o curso natural da vida é determinante o superior interesse da criança. Os estudos em ciências sociais têm repetidamente demonstrado a importância vital de ambos os progenitores, o pai e a mãe, para um ambiente saudável e positivo no desenvolvimento da criança e, os riscos que correm se criados sem um deles. A mãe e o pai trazem contribuições únicas que são essenciais para a sua saúde e bem estar.

"The most important issue is the welfare of the child. Social science research has repeatedly demonstrated the vital importance of both a father and a mother for the healthy development of children and the serious risks that they face if they are raised without a mother or a father. Mothers and fathers bring unique gifts that are essential to the health of a child."

3 - Crianças que foram privadas, por exemplo, do cuidado materno durante longos períodos de tempo na fase precoce das suas vidas, revelaram em geral menor capacidade de sentir e de se emocionarem, tendem a criar relações superficiais, a mostrar tendências antissociais e são mais hostis ao longo do seu crescimento.

"Children who were deprived of maternal care during extended periods in their early lives “lacked feeling, had superficial relationships, and exhibited hostile or antisocial tendencies” as they developed into adulthood."

4 - Os pais têm talentos específicos. São bons a disciplinar, a brincar e a levar as crianças a enfrentar desafios. São modelos a seguir para as crianças. A sua presença em casa protege a criança do medo e fortalece a capacidade da criança para se sentir segura. A vasta investigação cientifica sobre os graves problemas psíquicos, académicos e sociais nos jovens criados em famílias sem um dos pais demonstraram a importância da sua presença em casa para um desenvolvimento saudável.

"Fathers also have distinctive talents.(7) Fathers excel when it comes to providing discipline, play, and challenging children to embrace life’s challenges. They also provide essential role models for boys. Their presence in the home protects a child from fear and strengthens a child’s ability to feel safe. The extensive research on the serious psychological, academic and social problems among youth raised in fatherless families demonstrates the importance of the presence of the father in the home for healthy child development."

5 - Os direitos e as necessidades da criança a uma mãe e a um pai devem ser protegidos pelo Estado. Os adultos não têm o direito de deliberadamente, privar uma criança de um pai e de uma mãe.

"The rights and needs of children to a mother and a father should be protected by the state. Adults do not have a right to deprive children of a father or a mother."

6 - Um estudo australiano (Children in three contexts) feito com crianças a viver com casais heterossexuais casados, com casais heterossexuais em união de facto e com pares homossexuais, revelou que os primeiros forneciam o melhor ambiente para um desenvolvimento social da criança e para a sua educação, os casais em união de facto eram os segundos e, os pares homossexuais aparecem em último.

"In 1996 a well-designed study of 174 primary school children in Australia -- 58 children in married families, 58 in families headed by cohabitating heterosexuals and 58 in home with homosexual unions – suggested that married couples offered the best environment for a child’s social and education environment. Cohabiting couples were second best and homosexual couples came last.(8)"

7 - Existem académicos e activistas que se opõem a esta evidência, apoiando-se em estudos mal feitos e metodologicamente enviesados. Dois estudos de 2010 são frequentemente citados porque defendem que as crianças que foram deliberadamente privadas dos benefícios da complementaridade na família com pai e mãe, não sofrem danos psicológicos. Contudo, os dados recolhidos são auto-informações dadas pela mãe ou pai, estando estas a par da agenda política do investigador. O que distorce os resultados.

"Not surprisingly, there are scholars who oppose this weighty evidence. Two major studies published in 2010 are often cited by homosexual activists and the media. Nanette Gartrell and Henry Bos (10) and Timothy Biblarz and Judith Stacey (11) claim that children who were deliberately deprived of the benefits of gender complementarity in a home with a father and a mother suffer no psychological damage."

8 - Muita da investigação feita com pares homossexuais tem graves falhas metodológicas. É muitas vezes dito que não existe evidência de que as crianças são prejudicadas e agredidas emocionalmente se forem criadas por pares homossexuais.  Mas a ausência de evidência não prova que não exista. Quer apenas dizer que não existe evidência.

"Much of the research on same-sex couples tends to have serious methodological flaws. It is often argued that there is no evidence that children are harmed if they are raised by homosexual men. This is true, but the absence of evidence does not prove the case. It means that there is no evidence."

9 - As crianças têm o direito e a necessidade à parentalidade conjunta por um pai e uma mãe. De acordo com um dos maiores psiquiatras americanos (Fitzgibbons), as relações homossexuais não fornecem o ambiente ideal para que se possam criar e educar crianças, por várias razões: Primeiro, os pares homossexuais tendem a ser mais promíscuos. Um dos mais abrangentes estudos com pares homossexuais (The Male Couple), revelou que apenas 7 de 156 pares homossexuais tinham um relacionamento sexual exclusivamente monogâmico. A maioria destas relações duraram menos de 5 anos. Segundo, as uniões são muito frágeis. A probabilidade de quebra da relação é elevada nos pares de lésbicas. No estudo de 2010 (US National Longitudinal Lesbian Family Study) 40% dos pares que tiveram um filho (por inseminação artificial) tinham-se separado.

"Same sex relationships do not provide an ideal environment in which to raise children for several reasons.

First, same sex couples tend to be promiscuous. One of the largest studies of same sex couples revealed that only seven of 156 couples had a sexual relationship which was totally monogamous. Most of these relationships lasted less than five years. (...)

Second, the unions are very fragile. The probability of breakup is high for lesbian couples. In a 2010 report, the US National Longitudinal Lesbian Family Study, 40 percent of the couples who had conceived a child by artificial insemination had broken up.(3)"

10 - Privar deliberadamente uma criança da possibilidade de ter um pai e uma mãe magoa e faz mal à criança. As crianças adoptadas, em geral, vivenciam traumas de abandono precoce, na fase inicial das suas vidas e, devem ser protegidas de um trauma adicional como seria esta cruel experiência social.

"Deliberately depriving a child of a father or a mother harms the child.(12) Social science research supports this view. Adoptive children have experienced early-life abandonment trauma and should be protected from the additional trauma of being exposed to a cruel social experiment."

Estarão os direitos dos homossexuais acima das necessidades e direitos da criança a uma mãe e a um pai? Quem protege estas crianças?

Will no one step forward to protect these children?

 

O mesmo se passa com o post de esclarecimento que me endereçou, onde se limitou a traduzir os restantes parágrafos do artigo que não tinha incluído no primeiro post. Fica, assim, claro o empenho de Abel Matos Santos no debate científico desta matéria. Pergunto-me mesmo se leu algum dos artigos citados naquela lista de referências bibliográficas, como afiança no post que me dirigiu.

"Abaixo as referências dos estudos que consultei."

Pergunto-me se conhecia o autor do texto e o seu descrédito científico nos Estados Unidos, antes de o apelidar "um dos maiores psiquiatras americanos".

 

Da minha parte sou obrigado a desconsiderar a posição de Abel Matos Santos neste debate e espero que se retrate deste pequeno episódio lamentável, para não adjectivar com maior gravidade. Desde logo, julgo de elementar bom senso (e prova de boa fé do seu lapso) colocar uma referência ao autor original do texto que traduziu nos sítios onde o publicou, nomeadamente nos posts do corta-fitas e no jornal público. Não vou tecer nenhuma consideração pessoal em relação ao psicólogo Abel Matos Santos e dou por terminado um debate que se queria esclarecedor e científico mas que foi, na verdade, um debate, por interposta pessoa, entre mim e o Rick Fitzgibbons. Deixo uma última palavra ao João Távora, para que munido da informação que aqui recolhi, tome o peso às suas próprias palavras e reconsidere o post que endereçou à Ana Matos Pires

publicado por Rui C Pinto às 02:00 | link | indultar | cuscar indultos (4)
Quinta-feira, 23.05.13

Resposta a Abel Matos Santos

Foi com muito gosto que li a resposta de Abel Matos Santos, através do João Távora no corta-fitas, ao meu post de ontem onde analisei uma das referências bibliográficas que apresentou para sustentar os argumentos que esgrimiu neste artigo. Argumentos que, alegadamente, sustentam científicamente a sua oposição à lei de co-adoção aprovada recentemente pela Assembleia da República. 

 

Antes de mais saúdo a sua resposta como uma manifestação de boa vontade e de abertura ao contraditório. Vou cingir-me à ciência indo de encontro ao seu apelo no artigo que publicou no público. Como compreenderá, não levarei em consideração as suas referências 5 e 7. A referência 5 remete para um trabalho da jornalista e activista Dale O'Leary, correspondente de várias revistas católicas. Reconhecerá, certamente, como grosseira a citação de um trabalho de puro activismo religioso num debate científico, dada a total ausência de objecitividade da autora que não poupa nas intenções que motivam o seu trabalho, e cito: 

"The battle over gay marriage is but one part of a larger war against traditional morality and religion, and this war won't end even when the issue is settled"

Por outro lado, a citação 7 remete para uma entrevista cujo conteúdo nada releva ao debate em questão, na medida em que nem sequer o aborda directamente, sendo a conclusão que retira no seu post um exercício de interpretação subjectiva.

 

Considero que no post que lhe dirigiu, a Ana Matos Pires levantou dúvidas pertinentes em relação a Richard Fitzgibbons que descredibilizam o autor neste debate. É, por isso, preocupante que o qualifique como “um dos maiores psiquiatras americanos” sendo que este, como lembra a Ana, defende a utilização de prática "clínica" formal e deontologicamente condenada enquanto membro de uma organização fundamentalista desprezada pela comunidade científica norte-americana:

"While religious-right circles look upon NARTH as experts on the LGBT community, the mainstream scientific community pretty much ignores the group's research, and with good reason. Truth Wins Out calls NARTH "a discredited 'ex-gay' fringe organization that peddles fraudulent 'cures' for homosexuality.""

Pergunto-lhe se considera o tratamento da homossexualidade uma prática clínica válida e se subscreve as terapias propostas por Richard Fitzgibbons e seus associados:

"NARTH therapists have been known to practice rubber band therapy, where a gay client is made to wear a rubber band and snap it on his wrist when sexually stimulated. It is a mild form of aversion therapy meant to "snap" the client out of the moment of attraction. NARTH members have also been known to practice "touch therapy", where a client sits in the therapist' lap for up to an hour, while the therapist caresses him."

Repare que é absolutamente fundamental ao debate esclarecido fundamentar os argumentos em ciência. Nesse sentido, é grave que se baseie num profissional que não é reconhecido pelos seus pares e que defende práticas condenadas deontologicamente. 

É até caricato que cite o estudo "Adult attachment style dimensions in women who have gay or bisexual fathers", na sua referência 9, da autoria de Theodora Sirota. Este mesmo estudo levou a investigadora a denunciar publicamente Fitzgibbons por este ter distorcido os seus resultados para fundamentar a sua oposição ao casamento homossexual. Pode ler o comunicado na íntegra aqui, de onde realço:

“It has come to my attention that Dr. Fitzgibbons mis-reported and misrepresented the results of my 2009 research in this blog. I wish to clarify the findings, conclusions and implications of my study for the record.

(...)

My study was only about women raised in the context of heterosexually-organized marriages where fathers were identified as gay or bisexual. My research was not about and did not measure anything in women raised by gay parent couples or by single gay fathers. The women I studied were not raised in the context of gay or lesbian partnerships or by single gay fathers actively rearing their children.Therefore, no conclusions about gay or lesbian fitness to adopt children or quality of active gay parenting can be drawn from the findings of my research. No conclusions about the well-being of children who are or were actively raised by gay or lesbian parents can be drawn from the findings of my research.”

Repare que as conclusões que retira deste estudo, no seu post, justificariam o repúdio da autora, pelo que o desafio a reconsiderar a análise que fez dessa referência.

 

A opinião pessoal, baseada em motivação religiosa, política ou de qualquer índole é aceitável e salutar num debate livre e democrático. No entanto, não posso deixar de lhe fazer um reparo. A calma e cordialidade que lhe revestem as palavras não projectam bondade e benevolência na sua mensagem. Pede-me que não acuse ou maltrate os outros e faz contraditório, de forma subtil é certo, ao meu "fundamentalismo" enquanto "engenheiro social". No entanto, e como expus neste texto é o Abel Matos que sustenta a sua opinião em cientistas de credibilidade contestada e/ou reconhecidos activistas católicos e homofóbicos. Procurar revestir essa opinião de fundamentação científica é grave, preocupante e merece denúncia. 

 

Na verdade, do ponto de vista estritamente científico, não há evidência que sustente uma posição pro- ou anti- co-adopção por homossexuais, já que, como bem refere no seu post, 

"Argumenta-se com frequência que não está provado de que seja prejudicial para as crianças serem criadas por dois homens homossexuais. Esta firmação é verdadeira, no entanto, esta falta de provas não leva necessariamente à conclusão de que tal não é prejudicial para as crianças. Significa que não está provado."

não está provado que a homoparentalidade prejudique as crianças. Tão pouco que as beneficie. O que vai de encontro ao artigo de revisão que citei no post anterior, 

"At this point no research supports the widely held conviction that the gender of parents matters for child well-being."

Ora, se reconhece esta premissa como verdadeira, diga-me afinal em que se baseia para dizer isto? 

"1 - Iniciativas legislativas para que se aprove a adopção por pares homossexuais são erróneas e imprudentes porque desprezam os direitos das crianças e ignoram importantes estudos e pesquisas da área psicológica e social no que diz respeito às necessidades daquelas."

publicado por Rui C Pinto às 22:57 | link | indultar
Quarta-feira, 22.05.13

eu não queria incomodar (1)

Peço desculpa incomodar, tarde e más horas, com o meu mau humor. Venho a propósito da digna e simpática defesa de honra que João Távora faz do seu amigo Abel Matos Santos a quem afiança autoridade académica e brio profissional. Sentiu a honra do seu amigo ofendida a propósito da simples análise da Ana Matos Pires aos argumentos que aquele expôs aqui

 

Abel Matos Santos acrescentou ao seu post, cuja validade científica a Ana Matos Pires denunciou, uma lista de 12 referências bibliográficas. Tomemos, para análise, a referência 11 (Biblarz, T. J. & Stacey, J. (2010). "How does the gender of parents matter?" Journal of Marriage and Family. 72, 3-22.) que é acessível on-line aqui

 

O artigo faz revisão da bibliografia publicada sobre influência do género na parentalidade e termina com uma breve análise crítica da mesma. Na página 17, no capítulo Discussion, lê-se (sublinhados meus): 

"The entrenched conviction that children need both a mother and a father inflames culture wars over single motherhood, divorce, gay marriage, and gay parenting. Research to date, however, does not support this claim. Contrary to popular belief, studies have not shown that ‘‘compared to all other family forms, families headed by married, biological parents are best for children’’ (Popenoe, quoted in Center for Marriage and Family, p. 1). Research has not identified any gender-exclusive parenting abilities (with the partial exception of lactation). Our analysis confirms an emerging consensus among prominent researchers of fathering and child development. The third edition of Lamb’s (1997) authoritative anthology directly reversed the inaugural volume’s premise when it concluded that ‘‘very little about the gender of the parent seems to be distinctly important’’ (p. 10). Likewise, in Fatherneed, Pruett (2000), a prominent advocate of involved fathering, confided, ‘‘I also now realize that most of the enduring parental skills are probably, in the end, not dependent on gender’’ (p. 18)."

Conclui na página 18: 

"At the outset, we identified five parental variables routinely conflated by those who claim that children need both a mother and a father in order to thrive—number, gender, sexual identity, marital status, and biogenetic relationship to children. To adequately assess the impact of any one of these requires a research design that matches or controls for the others. Current claims that children need both a mother and father are spurious because they attribute to the gender of parents benefits that correlate primarily with the number and marital status of a child’s parents since infancy. At this point no research supports the widely held conviction that the gender of parents matters for child well-being. To ascertain whether any particular form of family is ideal would demand sorting a formidable array of often inextricable family and social variables. We predict that even ‘‘ideal’’ research designs will find instead that ideal parenting comes in many different genres and genders."

Ora, das duas três, ou Abel Matos Santos não sabe ler inglês, ou nos toma a todos por parvos, ou anda a gozar com a tropa, e de caminho, com o seu amigo João Távora a quem facultou a lista de referências bibliográficas. O conteúdo desta referência desmente categoricamente e sem qualquer apelo o post que assina e que publicou no Público a 16 de Maio de 2013. Este estudo considera spurious o argumento de que é indispensável uma mãe e um pai para o saudável desenvolvimento de uma criança, argumento que Abel Matos Santos desenvolve ad nauseam no seu post:

"2 -  Cada criança precisa de um pai e de uma mãe. Quando se altera o curso natural da vida é determinante o superior interesse da criança. Os estudos em ciências sociais têm repetidamente demonstrado a importância vital de ambos os progenitores, o pai e a mãe, para um ambiente saudável e positivo no desenvolvimento da criança e, os riscos que correm se criados sem um deles. A mãe e o pai trazem contribuições únicas que são essenciais para a sua saúde e bem estar."

O Abel Matos Santos sabe o que significa spurious? Talvez o João Távora possa ajudar.

 

P.S. Portugal é hoje uma grande maçada porque já vai tendo nisto da ciência alguma massa crítica. É uma chatice muito grande porque já não basta um gajo às direitas dizer "ah este meu amigo é um tipo com uma credibilidade à prova de bala e chama por tu todos os senhores doutores do Santa Maria" para obrigar os demais a vergar perante a sapiência e indiscutível seriedade de um "profissional". 

publicado por Rui C Pinto às 21:27 | link | indultar | cuscar indultos (2)
Segunda-feira, 20.05.13

água vai (2)

"A isto juntam-se as brutais consequências humanas, psicológicas, educativas, culturais e sociais que nascem de famílias em desagregação. Conflitualidade conjugal, explosão de divórcios, desequilíbrio emocional, precarização de relações, penetração do egoísmo, são sintomas evidentes e ameaçadores. O resultado é solidão, desespero ou embriaguez.

Tudo nasce de uma ideologia lasciva que impõe o postulado de que no sexo todos os prazeres são equivalentes e devem ser excitados. Esta mentira evidente e clamorosa consegue passar por razoável na propaganda libertina. O tempo que teme tabaco e obesidade promove divórcio, aborto, promiscuidade e depravação."

do inconfundível César das Neves.

é certo e sabido que as relações são cada vez mais precárias. consequência de gente precária, conflituosa, egoísta, desequilibrada, embriagada de ideologia lasciva e propaganda libertina. gente criada no rigor moral de famílias estruturadas, com pais extremados e tementes a deus. gente educada 

 

o universo já só equilibra se o César das Neves tiver um neto traveca ou uma neta sapatona. 

publicado por Rui C Pinto às 20:45 | link | indultar

água vai (1)

"Nenhum Parlamento democrático devia poder retirar o direito de qualquer criança a formar a sua identidade num quadro familiar (biológico ou adoptivo) em que estejam presentes - bem presentes - as referências masculinas e femininas necessárias ao desenvolvimento harmonioso da sua personalidade.

(...)

E, já agora, que respostas poderão os membros de um casal de homens dar a uma miúda de dois, três ou mais anos, por eles adoptada, quando ela começar a fazer aquelas perguntas a que só uma mulher sabe responder? Infelizmente, como se vê, as cadeias partem sempre pelo elo mais fraco."

daqui.

Marinho Pinto tem uma ideia muito clara de parentalidade, com marcadas referências masculinas e femininas. o pai está lá para castigar, a mãe para mimar. é evidente que tudo o que escape a um lar abençoado por uma mãe histérica e emocionalmente instável e um pai austero, ausente e, se possível, alcoólico e violento, resultará em desvios à personalidade. 

publicado por Rui C Pinto às 19:24 | link | indultar
Sábado, 18.05.13

"uma opção de modo de sociedade"

Hugo Soares, presidente da JSD, votou contra a lei de co-adopção por homossexuais. Votou, de acordo com a sua consciência, numa matéria a que foi dada liberdade de voto aos deputados do PSD. Divugou, no seu mural do facebook, uma nota de esclarecimento onde se penitencia pela aprovação da lei e onde faz votos para que a lei não seja aprovada em votação final global. Defende que a actual lei não defende o superior interesse da criança que vai contra aquela que é a sua "opção de modo de sociedade" e não se sente mandatado para a aprovação de tal lei. 

 

Vamos por partes. Primeiro, a "opção de modo de sociedade" por que se orienta Hugo Soares na sua actuação política nunca foi escrutinada pelo eleitor, pelo que não se deveria sentir mandatado a exercer o seu cargo de deputado. Segundo, esta questão nunca foi debatida, como bem reconhece, na JSD devido à constante recusa em debater questões sociais sob pretexto da premência da crise económica e financeira, pelo que deveria ter optado pela abstenção. Terceiro, fazer votos para que a lei venha a ser rejeitada em votação final global é revelador de uma total falta de solidariedade parlamentar para com os seus pares quer do PSD quer da JSD (Joana Barata Lopes) que votaram favoravelmente a lei, o que justificaria uma postura de debate construtivo na especialidade. 

 

Resta-nos indagar quanto à "opção de modo de sociedade" de que fala Hugo Soares, que não coloca em causa "a defesa dos direitos dos homossexuais" que lhe são "evidentes e indiscutíveis". Ora, o Hugo defende indiscutivelmente os direitos dos homossexuais, mas defender os direitos de uma criança que é criada no seio de uma família constituida por um casal de homossexuais é um pouco mais difícil, pois colide certamente com a sua opção e modo de sociedade. 

publicado por Rui C Pinto às 15:06 | link | indultar

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