a indiferença queima mais que as chamas

O país assiste a mais uma época de incêndios. Business as usual. A prevenção não é tão fotogénica nem telegénica quanto a calamidade das majestosas chamas. Não ocorre a nenhuma redação noticiar um presidente de câmara do interior a cortar mato e, por consequência, durante o resto do ano poucos se lembram de uma floresta desorganizada e suja. O combustível vai acumulando anónimo para sustento das chamas de Agosto e gáudio da comiseração humana. 

 

Mais chocante é a aparente naturalidade com que a protecção civil e os seus responsáveis políticos tomam conhecimento da morte de bombeiros no cenário de combate às chamas. É inacreditável que nenhum partido da oposição, nenhum meio de comunicação social, nenhuma organização de bombeiros voluntários, nenhum familiar das vitimas tenha pressionado o ministro da tutela a abrir inquéritos às circunstâncias em que estes operacionais perderam a vida. Chocante e inacreditável.

 

O comando operacional da Protecção Civil tem a obrigação de zelar pela segurança dos bombeiros. Não é razoável, tão pouco aceitável, que se coloque em risco uma vida por uma casa ameaçada ou um hectare de floresta. Dados os trágicos acontecimentos recentes torna-se absolutamente necessário clarificar se este principio é escrupulosamente cumprido pela estrutura de comando e se essa disciplina é ameaçada por acessos de voluntarismo ou heroísmo, por falta de meios mecânicos, por erros de comunicação ou estratégia no combate.

 

A aparente indiferença da sociedade em relação à segurança com que estes homens e mulheres trabalham é maior ameaça à sua vida que as próprias chamas.

publicado por Rui C Pinto às 21:50 | link | indultar