Resposta a Abel Matos Santos

Foi com muito gosto que li a resposta de Abel Matos Santos, através do João Távora no corta-fitas, ao meu post de ontem onde analisei uma das referências bibliográficas que apresentou para sustentar os argumentos que esgrimiu neste artigo. Argumentos que, alegadamente, sustentam científicamente a sua oposição à lei de co-adoção aprovada recentemente pela Assembleia da República. 

 

Antes de mais saúdo a sua resposta como uma manifestação de boa vontade e de abertura ao contraditório. Vou cingir-me à ciência indo de encontro ao seu apelo no artigo que publicou no público. Como compreenderá, não levarei em consideração as suas referências 5 e 7. A referência 5 remete para um trabalho da jornalista e activista Dale O'Leary, correspondente de várias revistas católicas. Reconhecerá, certamente, como grosseira a citação de um trabalho de puro activismo religioso num debate científico, dada a total ausência de objecitividade da autora que não poupa nas intenções que motivam o seu trabalho, e cito: 

"The battle over gay marriage is but one part of a larger war against traditional morality and religion, and this war won't end even when the issue is settled"

Por outro lado, a citação 7 remete para uma entrevista cujo conteúdo nada releva ao debate em questão, na medida em que nem sequer o aborda directamente, sendo a conclusão que retira no seu post um exercício de interpretação subjectiva.

 

Considero que no post que lhe dirigiu, a Ana Matos Pires levantou dúvidas pertinentes em relação a Richard Fitzgibbons que descredibilizam o autor neste debate. É, por isso, preocupante que o qualifique como “um dos maiores psiquiatras americanos” sendo que este, como lembra a Ana, defende a utilização de prática "clínica" formal e deontologicamente condenada enquanto membro de uma organização fundamentalista desprezada pela comunidade científica norte-americana:

"While religious-right circles look upon NARTH as experts on the LGBT community, the mainstream scientific community pretty much ignores the group's research, and with good reason. Truth Wins Out calls NARTH "a discredited 'ex-gay' fringe organization that peddles fraudulent 'cures' for homosexuality.""

Pergunto-lhe se considera o tratamento da homossexualidade uma prática clínica válida e se subscreve as terapias propostas por Richard Fitzgibbons e seus associados:

"NARTH therapists have been known to practice rubber band therapy, where a gay client is made to wear a rubber band and snap it on his wrist when sexually stimulated. It is a mild form of aversion therapy meant to "snap" the client out of the moment of attraction. NARTH members have also been known to practice "touch therapy", where a client sits in the therapist' lap for up to an hour, while the therapist caresses him."

Repare que é absolutamente fundamental ao debate esclarecido fundamentar os argumentos em ciência. Nesse sentido, é grave que se baseie num profissional que não é reconhecido pelos seus pares e que defende práticas condenadas deontologicamente. 

É até caricato que cite o estudo "Adult attachment style dimensions in women who have gay or bisexual fathers", na sua referência 9, da autoria de Theodora Sirota. Este mesmo estudo levou a investigadora a denunciar publicamente Fitzgibbons por este ter distorcido os seus resultados para fundamentar a sua oposição ao casamento homossexual. Pode ler o comunicado na íntegra aqui, de onde realço:

“It has come to my attention that Dr. Fitzgibbons mis-reported and misrepresented the results of my 2009 research in this blog. I wish to clarify the findings, conclusions and implications of my study for the record.

(...)

My study was only about women raised in the context of heterosexually-organized marriages where fathers were identified as gay or bisexual. My research was not about and did not measure anything in women raised by gay parent couples or by single gay fathers. The women I studied were not raised in the context of gay or lesbian partnerships or by single gay fathers actively rearing their children.Therefore, no conclusions about gay or lesbian fitness to adopt children or quality of active gay parenting can be drawn from the findings of my research. No conclusions about the well-being of children who are or were actively raised by gay or lesbian parents can be drawn from the findings of my research.”

Repare que as conclusões que retira deste estudo, no seu post, justificariam o repúdio da autora, pelo que o desafio a reconsiderar a análise que fez dessa referência.

 

A opinião pessoal, baseada em motivação religiosa, política ou de qualquer índole é aceitável e salutar num debate livre e democrático. No entanto, não posso deixar de lhe fazer um reparo. A calma e cordialidade que lhe revestem as palavras não projectam bondade e benevolência na sua mensagem. Pede-me que não acuse ou maltrate os outros e faz contraditório, de forma subtil é certo, ao meu "fundamentalismo" enquanto "engenheiro social". No entanto, e como expus neste texto é o Abel Matos que sustenta a sua opinião em cientistas de credibilidade contestada e/ou reconhecidos activistas católicos e homofóbicos. Procurar revestir essa opinião de fundamentação científica é grave, preocupante e merece denúncia. 

 

Na verdade, do ponto de vista estritamente científico, não há evidência que sustente uma posição pro- ou anti- co-adopção por homossexuais, já que, como bem refere no seu post, 

"Argumenta-se com frequência que não está provado de que seja prejudicial para as crianças serem criadas por dois homens homossexuais. Esta firmação é verdadeira, no entanto, esta falta de provas não leva necessariamente à conclusão de que tal não é prejudicial para as crianças. Significa que não está provado."

não está provado que a homoparentalidade prejudique as crianças. Tão pouco que as beneficie. O que vai de encontro ao artigo de revisão que citei no post anterior, 

"At this point no research supports the widely held conviction that the gender of parents matters for child well-being."

Ora, se reconhece esta premissa como verdadeira, diga-me afinal em que se baseia para dizer isto? 

"1 - Iniciativas legislativas para que se aprove a adopção por pares homossexuais são erróneas e imprudentes porque desprezam os direitos das crianças e ignoram importantes estudos e pesquisas da área psicológica e social no que diz respeito às necessidades daquelas."

publicado por Rui C Pinto às 22:57 | link | indultar