eu não queria incomodar (1)

Peço desculpa incomodar, tarde e más horas, com o meu mau humor. Venho a propósito da digna e simpática defesa de honra que João Távora faz do seu amigo Abel Matos Santos a quem afiança autoridade académica e brio profissional. Sentiu a honra do seu amigo ofendida a propósito da simples análise da Ana Matos Pires aos argumentos que aquele expôs aqui

 

Abel Matos Santos acrescentou ao seu post, cuja validade científica a Ana Matos Pires denunciou, uma lista de 12 referências bibliográficas. Tomemos, para análise, a referência 11 (Biblarz, T. J. & Stacey, J. (2010). "How does the gender of parents matter?" Journal of Marriage and Family. 72, 3-22.) que é acessível on-line aqui

 

O artigo faz revisão da bibliografia publicada sobre influência do género na parentalidade e termina com uma breve análise crítica da mesma. Na página 17, no capítulo Discussion, lê-se (sublinhados meus): 

"The entrenched conviction that children need both a mother and a father inflames culture wars over single motherhood, divorce, gay marriage, and gay parenting. Research to date, however, does not support this claim. Contrary to popular belief, studies have not shown that ‘‘compared to all other family forms, families headed by married, biological parents are best for children’’ (Popenoe, quoted in Center for Marriage and Family, p. 1). Research has not identified any gender-exclusive parenting abilities (with the partial exception of lactation). Our analysis confirms an emerging consensus among prominent researchers of fathering and child development. The third edition of Lamb’s (1997) authoritative anthology directly reversed the inaugural volume’s premise when it concluded that ‘‘very little about the gender of the parent seems to be distinctly important’’ (p. 10). Likewise, in Fatherneed, Pruett (2000), a prominent advocate of involved fathering, confided, ‘‘I also now realize that most of the enduring parental skills are probably, in the end, not dependent on gender’’ (p. 18)."

Conclui na página 18: 

"At the outset, we identified five parental variables routinely conflated by those who claim that children need both a mother and a father in order to thrive—number, gender, sexual identity, marital status, and biogenetic relationship to children. To adequately assess the impact of any one of these requires a research design that matches or controls for the others. Current claims that children need both a mother and father are spurious because they attribute to the gender of parents benefits that correlate primarily with the number and marital status of a child’s parents since infancy. At this point no research supports the widely held conviction that the gender of parents matters for child well-being. To ascertain whether any particular form of family is ideal would demand sorting a formidable array of often inextricable family and social variables. We predict that even ‘‘ideal’’ research designs will find instead that ideal parenting comes in many different genres and genders."

Ora, das duas três, ou Abel Matos Santos não sabe ler inglês, ou nos toma a todos por parvos, ou anda a gozar com a tropa, e de caminho, com o seu amigo João Távora a quem facultou a lista de referências bibliográficas. O conteúdo desta referência desmente categoricamente e sem qualquer apelo o post que assina e que publicou no Público a 16 de Maio de 2013. Este estudo considera spurious o argumento de que é indispensável uma mãe e um pai para o saudável desenvolvimento de uma criança, argumento que Abel Matos Santos desenvolve ad nauseam no seu post:

"2 -  Cada criança precisa de um pai e de uma mãe. Quando se altera o curso natural da vida é determinante o superior interesse da criança. Os estudos em ciências sociais têm repetidamente demonstrado a importância vital de ambos os progenitores, o pai e a mãe, para um ambiente saudável e positivo no desenvolvimento da criança e, os riscos que correm se criados sem um deles. A mãe e o pai trazem contribuições únicas que são essenciais para a sua saúde e bem estar."

O Abel Matos Santos sabe o que significa spurious? Talvez o João Távora possa ajudar.

 

P.S. Portugal é hoje uma grande maçada porque já vai tendo nisto da ciência alguma massa crítica. É uma chatice muito grande porque já não basta um gajo às direitas dizer "ah este meu amigo é um tipo com uma credibilidade à prova de bala e chama por tu todos os senhores doutores do Santa Maria" para obrigar os demais a vergar perante a sapiência e indiscutível seriedade de um "profissional". 

publicado por Rui C Pinto às 21:27 | link | indultar